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quinta-feira, outubro 28, 2010

O Facebook e a mãe que eu quero ser


Daí que na sexta-feira passada eu mandei um e-mail para I. dizendo que eu queria ir ao cinema.
Escolhi assistir The Social Network, do David Fincher,  que conta a história de como Mark Zuckerberg ainda estudante universitário em Harvard cria o Facebook e,  6 anos  e 500 milhões de usuários depois, se torna o bilionário mais jovem da história.
Não, não foi a história dele que me inspirou e me fez rever meus conceitos de vida. Caso você tenha visto o filme ou não, Mark Zuckerberg é mesmo um grande filho da puta (por quem eu não deixei de sentir certa simpatia durante o filme), o que meio que comprova minha teoria de que muito pouca gente enriquece as custas de bom caráter.
Mas então eu vou começar do início...
Uma parte de mim queria ter ido assistir Life As We Know It porque eu tenho uma grande tolerância com cinema meia- boca. Aí eu falo pra I. que quero ver, ele reclama um pouco, mas topa. Ele odeia o filme obviamente, e eu também sempre me arrependo e acho que foi dinheiro jogado fora. Para evitar isso quando eu já sei que o filme é ruim e mesmo assim eu quero ver (tipo Eat Pray Love) I. baixa pra mim no computador e eu assisto sozinha. E reclamo sozinha, sem gastar dinheiro.
Deixamos para ver no cinema só filmes que agradam a nós dois. Não é difícil pois eu quase sempre quero assistir tudo o que ele quer. E mesmo quando a princípio discordo da sugestão sou obrigada a mudar de opinião, quase sempre.
Dessa vez não foi diferente. Erroneamente achei que The Social Network era sobre o Facebook em si (quando no final das contas é  sobre amizade, ambição e traição). Até fiquei pensando porque diabos o David Fincher ia querer dirigir um filme sobre o Facebook, mas  I. comentou que queria assitir, A., amigo do Brasil disse o mesmo, e ambos disseram que era muito bom. Então eu resolvi dar-lhe uma chance.
Que bom. Que bom que eu tenho I. na minha vida para evitar que eu faça sempre as mesmas coisas.
Não íamos ao cinema há tempos. Há tanto tempo que eu tinha praticamente esquecido de como ir ao cinema me faz feliz. Durante os 5 primeiros minutos do filme não consegui parar de sorrir. E quando me dei conta disso me perguntei porque não fazemos isso com mais frequência?
Depois em casa, ainda ficamos um tempo conversando sobre o que tem acontecido com as nossas noites. I. concordou que com o início da gravidez entramos numa rotina de assistir a mesma coisa na TV toda noite (leia-se Friends) que o está cansando. Eu realmente passei muito tempo sem a menor energia para assistir um filme inteiro, ou até mesmo uma série de uma hora, depois do jantar sem cair no sono. Ir ao cinema? Preguiça só de pensar em sair de casa. Nem ler eu conseguia mais. Aí restava a TV.
Nós costumávamos assistir coisas novas o tempo todo, e conversar sobre elas. Falar de música, cinema,  literatura e arte em geral era mais frequente do que falar sobre o jantar do dia seguinte, ou sobre as chatices do meu trabalhou ou do dele.  Nós não íamos somente ao supermercado, mas às livrarias e museus da cidade.
Onde foi parar aquele casal de nerds?
E mais do que isso, o que aconteceu comigo? Me dei conta de que essa pessoa que eu estou sendo não sou eu. Nunca foi. Posso ter sim acumulado pela primeira vez na vida as rotinas de cuidar de uma casa (e me preparar para ser mãe), mas não preciso deixar de ser a pessoa que eu era. A que lia coisas interessentes e passava muito pouco tempo em frente as bobagens exibidas diariamente pela TV. A que conseguia ler 2 ou 3 livros ao mesmo tempo, o jornal inteiro pelo menos aos domingos,  assisitir 3 filmes seguidos no cinema (saudades das Mostra de Cinema de São Paulo).  Eu nem posso dizer que eu tenho menos tempo agora. Na época eu trabalhava em tempo integral, ia à faculdade à noite e estudava inglês aos sábados. Mesmo trabalhando 40 horas em sala de aula as coisas eram diferentes. Muito mais do que eu faço hoje. O que me definia era vontade de fazer, de ver, de conhecer, não tempo.
Eu não sou ingênua o bastante para achar que eu vou fazer isso (nem mesmo um quarto disso) depois que o babóg nascer. Se conseguirmos ir ao cinema duas vezes ao mês, vai ser muito, muito mesmo. Tempo para ler, claro vai faltar. Mas eu não quero ser a mãe que não tem assunto a não ser com outras mães. Que só sabe falar de marca de fralda e leite, mesmo com quem nem tem filhos ainda.
Eu não quero 500 milhões de “amigos” nem uma empresa avaliada em bilhões de dólares, mas o meu desafio pessoal é criar uma criança num ambiente com mais estímulos do que o que eu tive na vida.  E com menos TV. E sem sacanear ninguém, de preferência.
Não pode ser tão difícil, né?
N.
Ps. The Social Netorwork é o melhor David Fincher desde The Fight Club.

quarta-feira, outubro 27, 2010

15 semanas

Hoje eu completo 15 semanas. Para alguém que odeia esperar, esse negócio de contar as semanas ao invés dos meses até que funciona bem.
Estou naquela fase que mesmo com a barriga crescendo (e com aquele risco que desce umbigo abaixo, partindo-a ao meio, pra mim um sinal de que eu deveria ter uma cesárea) eu ainda não me sinto muito grávida. Especialmente agora que os sintomas já foram quase todos embora. Ainda vou muito ao banheiro mas o cansaço tem me dado trégua e os enjôs são definitivamente parte do passado.
Até o final dessa semana o bebê vai ter sobrancellhas e cilios (que eu espero loucamente que sejam iguais aos do papai).
E a propósito, como existem muitos bebês na minha vida (o amigo D., e o próprio I.) esse aqui da minha barriga eu passo a chamar de babóg, que é um pequeno bebê em irlandês (pode ser boneca também, ja que irlandês é  uma lingua esquisita).
Ontem I. chegou em casa com o primeiro presente que ele comprou para o babóg:  o livro do Neil Gaiman que a gente tinha visto há um tempo atrás através de um book trailler cujo link esta aqui.  O proprio Neil lê o livro (de um jeito tão bonito que me lembrou o porquê de eu ter me apaixonado pela lingua inglesa) e dá pra ver as ilustrações que são igualmente lindas. Vi o video milhões de vezes, li o livro milhões de vezes,  e postei o texto todo no último post.


Gosto das diversas referências aos contos de fada, mas que no final são instruções não só para uma aventura num mundo imaginário, mas para a vida real. (If any creature tells you that it hungers, feed it. If it tells you that it is dirty, clean it. If it cries to you that it hurts, if you can, ease its pain.)
Quando ouço I. falar das lembranças que tem do pai lendo para ele durante toda a infância, eu sinto uma pitadinha de inveja, e ao mesmo tempo uma felicidade muito grande em saber que ele fará o mesmo com o pequeno ou a pequena que esperamos.
E no final das contas, go home or make a home. Porque nenhuma instrução vale mais do que essa.
N.
Ps. desculpem-e a overdose do assunto. Parei.

Instructions

By Neil Gaiman (illustrations by Charles Vess)
Touch the wooden gate in the wall you never saw before,
Say ‘please’ before you open the latch,
go through,

walk down the path.
A red metal imp hangs from the green-painted front door,
as a knocker,
do not touch it; it will bite your fingers.
Walk through the house. Take nothing. Eat nothing.
However,
if any creature tells you that it hungers,
feed it.
If it tells you that it is dirty,
clean it.
If it cries to you that it hurts,
if you can,
ease its pain.

From the back garden you will be able to see the wild wood.
The deep well you walk past leads down to Winter’s realm;
There is another land at the bottom of it.
If you turn around here,
you can walk back, safely;
you will lose no face. I will think no less of you.


Once through the garden you will be in the wood.
The trees are old. Eyes peer from the undergrowth.
Beneath a twisted oak sits an old woman. She may ask for something;
give it to her. She
will point the way to the castle. Inside it
are three princesses.
Do not trust the youngest. Walk on.
In the clearing beyond the castle the twelve months sit about a fire,
warming their feet, exchanging tales.
They may do favours for you, if you are polite.
You may pick strawberries in December’s frost.

Trust the wolves, but do not tell them where you are going.
The river can be crossed by the ferry. The ferryman will take you.
(The answer to his question is this:
If he hands the oar to his passenger, he will be free to leave the boat.
Only tell him this from a safe distance.)

If an eagle gives you a feather, keep it safe.
Remember: that giants sleep too soundly; that
witches are often betrayed by their appetites;
dragons have one soft spot, somewhere, always;
hearts can be well hidden,
and you betray them with your tongue.

Do not be jealous of your sister:
know that diamonds and roses
are as uncomfortable when they tumble from one’s lips as toads and frogs:
colder, too, and sharper, and they cut.

Remember your name.
Do not lose hope – what you seek will be found.
Trust ghosts. Trust those that you have helped to help you in their turn.
Trust dreams.
Trust your heart, and trust your story.

When you come back, return the way you came.
Favours will be returned, debts be repaid.

Do not forget your manners.
Do not look back.
Ride the wise eagle (you shall not fall).
Ride the silver fish (you will not drown).
Ride the grey wolf (hold tightly to his fur).

There is a worm at the heart of the tower; that is why it will not stand.

When you reach the little house, the place your journey started,
you will recognise it, although it will seem much smaller than you remember.
Walk up the path, and through the garden gate you never saw before but once.
And then go home. Or make a home.

Or rest.

segunda-feira, outubro 25, 2010

A Fila

Aproveitando que a minha energia voltou, e em contagem regressiva para quando não vai haver tanto tempo livre para ler, volto à minha rotina de ir para cama, sozinha, uma hora mais cedo. Assim minha fila anda, a pilha de livros no criado mudo (que atualmente conta com os 12 aí de baixo) diminui, e eu vou pensando na minha lista de desejos para o Natal.















N.

ps. Essa fila nem inclui os livros sobre gravidez que também andam espalhados pela casa toda. 

domingo, outubro 24, 2010

Lar Novo Lar - A procura

 
A minha super área externa
Dia 20 de Novembro o contrato de aluguel de I. com o proprietário do apartamento da Waterloo Road termina. Por mais que eu goste daqui (gosto mais da área do que do apartamento em si) chegou a hora da mudança. I, que sabe mais de bebês (e de quase todas as outras coisas) do que eu, me contou que um bebê, mesmo bem pequeno, ocupa um espaço muito grande. Pelo que eu entendi até agora (ainda estou aprendendo) são as coisas do bebê que ocupam muito espaço, não o bebê em si.

A idéia a princípio era comprar uma casa. Mas ao contrário do Brasil, comprar uma casa aqui envolve um bocado de dinheiro. O que I. tem no banco, reservado para essa compra, nos renderia um belo apartamento em São Paulo. Não um daqueles na Avenida São Luís, de pé direito altíssimo, que eu tanto sempre quis. Mas um apartamento classe média, zona leste. Até perto do metrô. Mas aqui só é suficiente para dar entrada numa hipoteca que levaríamos boa parte dos nossos anos pagando. O problema é que ainda não desistimos do plano de nos mudar (pelo menos por um ano ou dois) para o Brasil, um dia no futuro próximo. Ou melhor, não abrimos mão de ter a opção de fazer isso. Aí decidimos alugar um lugar, por mais um ano. Se dentro desse ano chegarmos a conclusão que a mudança para o Brasil não vai acontecer, começamos o processo de compra e caímos na hipoteca.

Meu espaçoso living room

Daí que achar um apartamento, ou casa, não tem sido lá muito fácil. Muito provavelmente porque temos muito mais exigências do que dinheiro para pagar aluguel.

Para começar, I. não abre mão de morar na zona sul, onde o aluguel é muito mais caro. Eu, mesmo trabalhando na parte norte da cidade, sou obrigada a concordar. Quanto mais tempo eu passo próximo à O’Connell Street e proximidades mais eu quero morar longe dali. 

Como escolhemos a localização, infelizmente temos que abrir mão de um pouco mais de espaço. 3 quartos a princípio está fora de cogitação, a não ser que encontremos uma boiada. Por mim tudo bem, um bebê e dois quartos a mais para limpar? Não obrigada.

O segundo critério, é claro o valor do aluguel. 1) Não temos muito dinheiro mesmo. 2) Não queremos aumentar muito esse gasto quando todos os outros vão subir de qualquer maneira e com um bebê a caminho (I. também me ensinou que os gastos com um bebê podem ser exorbitantes). 3) Aluguel é dinheiro que desce pelo ralo.

O prédio
O ideal seria ficarmos em Ballsbridge mesmo, perto do trabalho de I, perto do centro. Empecilho número um, praticamente impossível achar um lugar descente que não custe uma fortuna. Estamos procurando nos arredores, qualquer lugar em Dublin 4, até mesmo Dublin 6 (Rathmines ou Ranelagh seria legal). Dun Laoghaire também é uma opção, um pouco mais longe para nós, mas definitavemente um lugar onde eu adoraria morar, mas nesse caso também precisar estar perto do Dart

O terceiro critério, também do qual eu não abro mão, é de que o lugar tenha uma geladeira tamanho gente. Frigobar? Nunca mais. Acredite, é isso que tem me feito desistir de 90% dos anúncios que já encontrei.

O quarto, bom, o quarto critério é o quarto mesmo. Queremos dois quartos com cama de casal, quando a maioria oferece um single e um duplo. Além disso, o quarto principal tem que ter armários espaçosos (preferencialmente embutidos, claro).

O Canal, o que mais eu vou sentir falta de ter ao lado de casa
E não para por aí. Já que eu vou ser mãe acho que mereço um upgrade de vida, e quero também um chuveiro elétrico. Ter que ligar a água pelo menos 20 minutos antes de tomar banho eu não mereço. E já que o assunto é banheiro, eu lógico quero uma banheira também.

Um pouco de sol na janela, assim de vez em quando, mesmo que bem de vez em quando, também não seria de todo mal não.

E se fosse uma casa com um jardim, mesmo que bem pequeno, aí eu até parava de reclamar da vida.

N.

P.S. Parava coisa nenhuma, mas pelo menos I. ia me ouvir reclamar sentado no jardim com uma lata de cerveja na mão, pelo menos no verão, o que convenhamos é muito melhor pra ele.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Confesso

Eu. Inédito. Sem reservas. Sem vergonha. Sem orgulho. Em quinze coisas que ninguém, ou quase ninguém sabe.
  • Desde que fiquei grávida, antes de mesmo de saber,  passei a dormir com a companhia de uma abelha de pelúcia. Igual essa da foto aí de cima, mas amarela e não rosa (como se isso fosse salvar minha dignidade).
  • O dia mais feliz da minha vida, não foi o dia do meu casamento. Foi o dia que eu vi o Paul McCartney ao vivo (O dia em que eu ganhei um Beatle de Natal).
  • Um dia qualquer da semana passada, fui ao Tesco comprar leite. Ao voltar pra casa percebi que estava com o rosto todo sujo de Nutella.
  • Há algumas semanas atrás almocei todos os dias (todos sem uma exeção, nenhuma) no McDonald’s. Sempre um McFish, que aqui nem chama McFish (o que não vem ao caso, mas eu acho um nome fantástico para um lanche do McDonald’s que é feito de peixe).
  • Vou almoçar hoje no McDonald's. Adivinha o quê?
  • Eu comeria todos os dias no McDonald's. Feliz da vida.
  • Eu faço manha (e drama) com I. para conseguir o que eu quero. E o que eu quero é quase sempre só atenção. E já fazia isso antes, bem antes, da gravidez.
  • Eu não perco o X-Factor. Posso até sair de casa no sábado à noite (e no domingo), mas tenho que gravar o programa e assistir assim que chegar em casa. E já que é para por o pé na jaca, eu assisto também America’s Next Top Model, Britain’s Next Top Model, Australia’s Next Top Model, Canada’s Next Top Model e assistiria todos os outros da série se eles fosem exibidos pela TV irlandesa.
  • Eu choro todas as vezes que ouço Fake Plastic Trees, no carro, no ônibus, no pub, no supermercado, andando na rua. Não consigo evitar.
  • Eu não tenho paciencia para deixar o saquinho de chá lá boiando pelo tempo recomendado.
  • Eu sinto um pouquinho de pena de quem não assitiu Inception, ou não gostou não entendeu o filme. Ou quem não acha que é a coisa mais fantástica já produzida pelo cinema.
  • Eu odeio falar ao telefone. Eu tenho até um pouco de medo de atender o telefone. Eu nem sequer retorno ligaçoes. Às vezes nem mensagens de texto.
  • Eu corrijo o inglês de algumas pessoas. Mentalmente.
  • Eu acho o Wagner Moura um gostoso.
  • Quando pequena eu brincava com escovas de dente. Dava nomes para elas. Fazia o mesmo com os esmaltes.
Pronto, falei.
N.

sexta-feira, outubro 15, 2010

100.000 Nomes




Comprar um livro com nomes de bebês foi uma perda de tempo e dinheiro. Para não dizer que sou eu sempre que tenho más idéias, essa foi de I, depois de que decidimos que precisávamos de outras opções, além das 3 que já tínhamos (1 nome de menino, 2 de menina).

O livro contém sim uma quantidade enorme de sugestões. 40% delas, eu nem sei pronunciar (Chalchiuitl está nessa lista). 30% I. não consegue pronunciar. 20% são tão esdrúxulas que qualquer pai ou mãe que as cogite deveria ser proibido por lei de registrar um filho dessa maneira. Eu sei que gosto não se discute, mas vai me dizer que uma criança não deveria ser poupada de ser chamada de Volupia (do grego "mulher voluptuosa")? Difícil também imaginar um menino chamado Calígula. Coitada da criança.

Enfim, lemos o livro todo e fizemos uma lista cada um para ser comparada. No final das contas voltamos aos mesmo 3 nomes. 

A idéia sempre foi de fosse um nome curto. Por duas razões, uma delas apontada pela minha sogra cujos 3 filhos tem nomes de no máximo 6 letras, de que é muito difícil para uma criança que está sendo alfabetizada escrever um nome muito longo. A segunda, para evitar-se apelidos. Afinal de contas, para que chamar minha filha de Elizabeth, se ela será pra sempre Liz, ou Lizzy, ou no Brasil, Beth. Eu não gosto, I. também não. 

O segundo critério do qual não abrimos mão é de que seja um nome que tanto a minha família, que fala português, quanto a dele que fala inglês, consiga pronunciar perfeitamente. Isso exclui todos os nomes irlandeses, como Cian (para um menino) ou Sinead (para uma menina) que eu tanto gosto, e nomes em inglês ou português também. 

Para ser mais chata, eu quero que não só a pronúncia não seja problema em nenhum dos dois países, mas quero de preferência que o nome não mude muito de um lugar para outro. I, sugeriu Eva. Eu gosto do jeito que é pronunciado em inglês (Iva) mas acho feio em Português, vira outro nome. 

Além da pronúncia em si, existe o problema de que alguns nomes simplesmente não funcionam muito bem quando se troca de país. Eu gosto de Ella. Mas fica meio que a mesma coisa que chamá-la de "She" aqui na Irlanda. I. gosta de Mina. Imagina a gozação caso ela frequente a escola no Brasil (a gente nunca sabe). Emma foi descartado pela mesma razão. 

Para um menino nossas opções nunca foram muitas. Tínhamos escolhido um, Thomas (ou Tomas), que é o nome do pai de I., e segundo nome dele também. Mas na procura de uma segunda opção acabamos por escolher outro e Thomas caiu uma posição no ranking.

A segunda opção para uma menina também já foi por água abaixo. Sofia (ou talvez Sophia). Ainda acho lindo, lindo, mas I. (eu não sou a única chata pra vc ver) cismou que não combina com SorensenSofia Sorensen. O pior é que eu acho mesmo que ele tem razão. Daí que a segunda opção agora, talvez ainda com chances de virar a primeira, é Elena (grafado assim mesmo, sem o H). 

Quanto a nossa primeira opção para uma menina (que eu contrariando TODAS as outras opiniões, acho que é o que eu estou esperando), essa parece estar decidida desde quando eu ainda era menina. Explico. Quando eu era pequena, todas as minhas Barbies tinham algo em comum (além da aparência, claro). Elas todas ganhavam nomes de mulheres que apareciam nas músicas dos Beatles. Vai, me chama de louca, mesmo. Me lembro de todas, PennyLucyMarthaMichelle, Rita. Até a única Barbie morena que eu tive (de vestido evoaçante), de longe a minha preferida (talvez porque ela veio com aquele carro rosa metálico, puro luxo) se chamava Prudence

Mas não se assuste, eu não quero nenhum desses nomes para a minha filha. Pra ela eu escolho uma referência muito mais sutil, e que se encaixa perfeitamente em todos os critérios dos Sorensen. Se for uma menina o ser que habita agora a minha barriga, o nome dela é (e sempre foi, eu sempre soube) Julia.

Ah, e se todo o resto do mundo estiver certo, ele se chama Eric (ou Erik), escandinavo para combinar com o sobrenome viking do papai.

N.

p.s. longe de mim achar que eu não posso mudar de opinião assim que ver a carinha dela ou dele. 

quinta-feira, outubro 14, 2010

O bem que um bem faz

"A fragrância sempre permanece na mão de quem oferece flores"
Hadia Bejar



Em outubro do ano passado, ou seja, há um ano atrás eu fiz uma lista com as 101 coisas que eu queria fazer nos próximos 1001 dias (que aliás, precisa ser atualizada, afinal tem coisa lá que eu já fiz e coisa que eu desisti faz tempo, e coisa que, convenhamos. eu vou ser obrigada a desistir).

O item 77, "Fazer uma boa ação, mesmo que muito, muito pequena" continua lá e não foi tachado. Não porque eu tenha desistido desse (eu estava realmente falando da tatuagem), nem muito menos porque eu não tenha tido oportunidade ainda. Shame on me eu não fiz, e pronto.

Felizmente existem pessoas muito melhores do que eu nesse mundo, e na semana passada eu fui vítima de uma delas.

Com uma ação pequenininha, pequenininha, R. (que foi minha aluna na Cultura Inglesa) fez o meu dia. 

Eu já disse aqui, mais de uma vez, que uma das minhas grandes alegrias é abrir a caixa do correio e encontrar correspondência para mim. Daí que melhor do que isso, a cartinha vinha do Brasil. Eu que nunca recebo nadica de nada do Brasil, abri o envelope ali mesmo, no hall do prédio. 

Para minha surpresa, me deparei com vários cartões e respectivos envelopes. Em branco. Todos. Achei que R. tinha me mandado o pacote por engano. Foi quando achei no meio dos cartões uma cartinha explicando a razão da encomenda. 

R. leu aqui mesmo no blog que eu acho linda a relação que os Irlandeses mantém com o hábito de mandar cartões. Daí que resolveu me mandar esses aí de cima, todos feitos por pessoas com deficiências físicas. Foram todos pintados ou com a boca, ou com os pés.

Com a compra dos cartões, R. ajudou a instituição Pintores com a Boca e os Pés que por sua vez ajuda milhares de artistas a viver dignamente da sua arte (não de caridade, mas de trabalho). O bem que ela fez, fez bem também pra mim que fui presenteada com os cartões (e com o carinho e atenção dela ao se lembrar de mim). E vai fazer bem (mesmo que por poucos segundos), espero, as 11 pessoas que receberão os meus cartões (e carinho) em breve. 

O outro cartão, que completa a dúzia,  já está a caminho do Brasil. Faz o caminho diretamente inverso e volta para as mãos de uma das pessoas mais doces que eu já conheci.

R., um beijo direto do meu coração.

N.

quarta-feira, outubro 13, 2010

13 semanas

Hoje completo 13 semanas de gestação, a última do primeiro trimestre, e para comemorar posto as primeiríssimas compras do meu bebê. 

Bodysuits 

"Gingerbread" all in ones 

Fluffy hat 

All in ones and hats 

Booties

Sair as compras pela primeira vez foi muito mais difícil do que eu imaginava. Primeiro, as coisas custam caro. Só nessa mixaria aí que coube numa única sacola, gastei mais de £50. Pois é, libras, não euros. 

Segundo porque tudo tem que ser em tom de nada, já que não sabemos se esperamos um menino ou menina. 

A terceira dificuldade, o tamanho. Acredite, você pode escolher entre petit petit new born, petit new born e newborn. Isso tudo só para recém-nascido, claro. Ainda não cheguei nesse capítulo do meu livro sobre o tamanho que o bebê vai ter ao nascer (mas sei que agora tem o tamanho aproximado do meu dedo mindinho).

A quarta, o que um recém-nascido precisa? Eu não sei. Acho que nunca nem vi um, assim de perto. Fiquei horas na loja pensando se devia comprar mangas curtas, mangas compridas, roupas de frio, de meia estação. Se precisa mesmo de luvas, ou se porque nasce na primavera isso é bobagem.

Prometo que da próxima vez vou procurar me informar antes e só comprar aquilo que, provavelmente, usarei mais. A não ser, claro por itens-lindos-de-morrer que vou comprar sem dó, mas só depois de saber o sexo do indivíduo. 

Mas para isso ainda preciso esperar, pelo menos, mais 4 semanas.

N.

ps. Estou com gripe, e de cama

terça-feira, outubro 12, 2010

O livro da barriga

Desde que eu me conheço por gente, eu escrevo diários. No começo eles eram cadernos normais cujas capas eu montava com recortes de revistas de bandas e atores que eu gostava. Ainda me lembro de um dos primeiros que me acompanhou por anos, com a cara do Michael J. Fox na capa (sim, eu tenho mesmo 32 anos e não nego). Eles ficavam enormes com o tempo, de tanto papel de bala, bombom, ticket de cinema e quinquilharia que eu juntava. E depois iam todos para o lixo nas minhas típicas crises de depressão Feng Shui interno.  

As capas "Caras" que deram lugar as capas normais, com menos cara de adolescente, viraram com o tempo simplesmente um arquivo do Microsoft Word e eventualmente virou esse blog (cujo primeiro post de Abril de 2006 ainda está aqui).

Em Janeiro de 2008, no último dia de férias em Londres descobri uma papelaria muito fofa (a Paperchase que também tem filiais aqui em Dublin) e comprei um caderno, transformado naquele mesmo dia num diário que eu escrevi até o último dia do ano passado. 

O diário sofreu um pequeno acidente causado por leite e nescau, 
mas ainda está intacto. Se clicar na foto dá até pra ler o que eu escrevi naquele dia.

O caderno chegou ao final mas continuo escrevendo (com pouca frequência, é verdade), num outro que D. me trouxe de presente da Alemanha.

Eu disse com pouca frequência, justamente por usar esse espaço online como um diário também. Não existe a intenção de mudar o foco do blog (o meu próprio umbigo, agora literalmente), mas ao mesmo tempo, eu não queria transformá-lo num blog de gravidez (apesar de que esse ainda vai ser o assunto principal por mais alguns meses, não tenho como escapar). 

O problema foi resolvido quando encontrei na Hodges Figgs esse diário:



Ou melhor, eu o vi na contracapa de um outro livro. Eles não tinham disponível na hora então tive que encomendar e esperar dias e dias para comprar. O telefonema da loja veio no dia do meu aniversário então resolvi voltar do trabalho caminhando e dar uma paradinha por lá. 

Aproveitei também e comprei a versão do bebê:


Afinal, não vai ser filho* meu se já não nascer com um diário. ;o)

N.

ps. o fato de eu chamar de filho não quer dizer necessariamente que eu acho que vai ser um menino (contrariando todo mundo). 

ps2. I. também me deu esse livro de aniversário, cheio de informações legais sobre ter um filho aqui na Irlanda, e escrito por um obstetra que trabalha na materninade onde eu vou ter o meu:




segunda-feira, outubro 11, 2010

3.2

Fiz 32 anos na última sexta-feira. Depois que você passa dos 30, fazer 32 é um pedaço de bolo. E foi muito melhor do que quando fiz 31 e estava me sentindo meio sozinha por aqui. 

Esse ano foi especial porque eu sabia que não ia passar pela DPA (depressão pós-aniversário). Com um bebê a caminho fica fácil esperar que pelo que vem pela frente, ao invés de esperar só pelo Natal (porque é isso que eu costumava fazer, do dia 9 de Outubro ao 24 de Dezembro).

Estar grávida também significou que eu pude comer tudo o que eu queria sem me sentir (muito) culpada. Passei o dia a base do bolo prestígio que eu mesma fiz (e levei pro trabalho), e à noite comemos pizza. I. me deu o par de tênis placebo que eu queria (reza a lenda, e eu escolhi acreditar, que o tênis exercita os músculos do bumbum e das pernas enquanto você caminha), o Claddagh ring que eu também tinha pedido (escrevi esse post aqui sobre a lenda do anel), e me levou pra Belfast para passar a noite num quarto de hotel legal e com dinheiro para fazer compras por lá. 




 
Foi o fim-de-semana perfeito, comprei roupas para o bebê (pela primeira vez), passeamos, saímos para jantar, aproveitei a banheira do quarto de hotel e a cama gigante e dormi como há tempos não dormia, descansamos. Voltei para Dublin me sentindo mais nova, ao invés de mais velha. 



Pra todo mundo que me deixou recadinhos online espalhados por aí eu retribuo com muitos, muitos beijos. 

N.

sábado, outubro 09, 2010

Preto, branco e amarelo

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
(Frejat/Cazuza)

Eu tenho muita pena de quem não sabe ler. Não estou falando de quem é analfabeto, de quem não teve chance de ir à escola. Esse pelo menos tem consciência da própria ignorância, o que já é um sinal de vida inteligente. Estou falando mesmo é daquele que sabe que B + A é Ba, mas não consegue ir muito além disso. Aquele que estudou, às vezes até que foi (e foi aqui é o melhor termo) à faculdade. 

Dou um exemplo melhor, para quem consegue acompanhar, claro. Recebi um email, anônimo (outra coisa que me dá pena) me esculachando por ser a favor do aborto e do homossexualismo. Agora, começando com o aborto, se você voltar lá no meu último post, vai ler que eu disse que sou a favor da legalização do mesmo. E só. Não tem nem subtexto para chegar a nenhuma outra conclusão além do que está literalmente escrito. A minha opinião sobre aborto nem está lá. Não por covardia, mas porque nem era relevante para o assunto sobre o qual eu escrevia. 

Mas como eu não tenho medo das minhas opiniões, e nem "medo de que Deus me castigue", vai lá. Eu não sou a favor do aborto. Acho sinceramente que ninguém é. Eu acho sim, que toda mulher deve ter a opção de terminar uma gravidez indesejada, com a apoio médico e psicológico descente. Se eu faria um? Honestamente eu não sei. Definitivamente não hoje, com mais de 30 anos, casada e com condições psicológicas e financeiras de criar e educar uma criança (tendo ela sido planejada ou não), não com luxo, mas com dignidade e conforto. Fácil dizer que a minha resposta é não, eu nem consideraria essa hipótese. Tivesse eu 15 ou 10 anos a menos, e a situação fosse diferente, talvez eu não tivesse tão certa assim. Difícil (e as vezes até dolorido) é se colocar no lugar do outro. Pouca gente sabe fazer isso, principalmente entre os que se dizem "religiosos", por mais irônico e anti-cristão, que isso possa parecer. 

Em segundo lugar, quem enxerga as coisas em cores que vão além do preto e do branco, sabe muito bem que a  maioria das pessoas não deixa de tomar suas decisões, e de agir, contra o que se convém chamar de imoral ou ilegal. Portanto, legalizar o aborto, não significa automaticamente aumentar a taxa de abortos que são realizados por aí todos os dias. Quem tem dinheiro, paga por uma clinica ilegal. Quem não tem tenta os métodos mais esdrúxulos para conseguir o que deseja. Em ambos os casos a gente sabe como, na maioria das vezes, a coisa termina. 

Lógico que num mundo ideal, ou num filme com a Meg Ryan, as pessoas teriam todas as condições de evitar uma gravidez indesejada, e tudo seria perfeito. Mas como não é, particularmente, eu acho que abortar ou não (nas primeiras semanas e por razões médicas, sociais ou econômicas plausíveis) é uma decisão ética e moral que deveria caber à mulher. Eu não julgo nem uma, nem a outra.

Quanto a segunda polêmica, bom, essa é tão ridícula que eu me sinto até meio sem vontade de rebater. Para começo de conversa, eu sou a favor do homossexualismo. Entendi. Então quer dizer que existe gente contra. Então, é tipo a minha opinião sobre o amarelo. Explico melhor. Eu acho amarelo uma cor horrível, acho que ninguém fica bem de amarelo, e ninguém deveria usar. Pronto falei. O "problema" é que o amarelo existe indiferentemente do meu gosto pessoal. Ele não vai deixar de existir porque eu não gosto (a não ser que um dia eu compre minha própria ilha, crie um país, e corte cabeças de quem ousar usar amarelo). Do contrário, vai sempre existir gente que goste de amarelo (e que me condene por gostar de roxo). E sabe o que mais? Se eu parar para pensar, não me faz mal nenhum, nem nenhuma diferença na minha vida, whatsoever, o fato das pessoas que gostam de amarelo existirem, ou até mesmo o fato delas (ousadas!) usarem amarelo na minha frente! Nem sequer dói. 

Vou mais longe, e acho que se existe um Deus, mesmo que ele não goste de amarelo (eu prefiro acreditar que ele gosta de todas as cores), essas pessoas não vão ser castigadas. 

Mas nada disso estava escrito no meu post. Eu só tinha dito que acho que sim, pessoas do mesmo sexo deveriam ter o mesmo direito que eu tive, de me casar legalmente. Não entendo porque não. E também não entendo o medo absurdo das pessoas que acham que caso isso aconteça, o mundo vai se acabar em fornicação.

Chega  a ser engraçado. Eles acham que sexo gay deve ser tão bom, tão bom (nunca tentei, mas não estou dizendo que não seja) que ninguém mais vai querer fazer sexo hétero. Ou seja, se um homem puder legalmente casar com outro, não vai mais se casar com uma mulher, não vão ter filhos e it's the end of the world as we know it.

É até uma lógica meio flattering aos homossexuais, não é não?

Se você teve paciência de ler tudo isso e tem uma opinião diferente, ou melhor, um argumento que não seja "é pecado" (porque isso me lembra minha mãe me dizendo que eu não podia fazer alguma coisa "porque não"), e coragem de assinar seu nome embaixo, fique à vontade.

E caso você goste de amarelo, e tenha se sentido ofendido, eu peço desculpas pela metáfora.

Agora são quase 6 da manhã e se a insônia me permitir, eu volto para a cama. 

N.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Não abra, é spam.


Quando a pessoa coloca uma mensagem pessoal no Facebook, no Orkut, no Twitter (ou sei lá mais onde), seja lá o que for, você é obrigado a aturar, afinal de contas todos esses sites de relacionamento são para isso mesmo, para espiar a vida do outro (não é que George Orwell tinha razão?). Se você não gosta, conta com a simples opção de deletar a pessoa da sua lista de amizades, ou excluir sua conta e cuidar da própria vida. Portanto acho o ó quando fulano reclama das mensagens que lê por aí.
Agora o que me irrita mesmo, a nível estratosférico são mensagens enviadas diretamente às minhas contas de e-mail ou páginas pessoais. Não me leve tão a mal, às vezes recebo coisas bonitinhas ou engraçadas (ou pelo menos de bom gosto) que alguém recebeu numa corrente qualquer e achou que tinha a ver comigo (e às vezes mais um grupinho de pessoas). Tudo bem até aí. O que eu não gosto mesmo são aquelas vindas do fulano (que às vezes eu não vejo há tanto tempo, que já nem me lembro mais da onde conhecia) que simplesmente seleciona todos os contatos e manda ver. Parece até que esse tipo de pessoa só conhece uma única função do e-mail: forward.
Mais do que campanhas “solidárias”, fotos mega fofas de bebês, cachorros (ou cachorros com bebês), avisos de perigo eminente (roubo de senhas, alimentos cancerígenos), o que me irrita ainda mais são aqueles pedidos de voto. Seja ele no seu blog, no seu filho, no síndico do seu prédio ou no presidente da República.
Essa semana duas vertentes do tipo inundaram minha caixa postal. A primeira tentando mudar minha opção de voto para  presidente. Eu? Hello? Primeiro, eu não sou católica, nem protestante, nem religiosa (perigo até ser atéia, ou no minimo agnóstica). Segundo, eu sou mais é a favor da legalizacão do aborto e da união civil de pessoas do mesmo sexo mesmo. Terceiro, eu sei muito bem que, além de uma idiotice, é uma grande mentira. E terceiro, eu não baseio meu voto na opinião dos outros.
A segunda foi o “por favor vote na minha filha para a eleição do Miss Maria do Bairro 2010”*. Não um ou dois emails, mas vários, todos os dias, por dias e dias seguidos. Como se não fosse o bastante para encher meu saco (que não é grande), aí vem o pedido para que eu mande por e-mail meu nome completo e CPF assim a pessoa pode votar por mim e “evitar” me aborrecer. Faça-me o favor, né? Quer parar de me aborrecer, e só parar com os e-mails.
Aliás, se católicos/protestantes e afins seguissem o mesmo raciocínio, estariam pedindo pelo meu título de eleitor para  “evitar” me aborrecer, votariam por mim e me livrariam assim de todo o mal amém.
Sim, estou ficando mais velha e mais resmungona. Parabéns para mim.
N.
* o nome da campanha foi trocado para evitar constrangimentos.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Dois Pesos


O texto abaixo, de 2 de Outubro, é de autoria da psicanalista Maria Rita Kehl, colunista do jornal O Estado de São Paulo, que pode ter sido demitida (ou no mínimo censurada) pela publicação do mesmo.
Se eu fosse assinante do Estadão (não vejo porque seria, em primeiro lugar), cancelaria minha assinatura. Como não sou, publico o texto aqui, porque além de achar absurda a decisão do jornal, o texto é sem dúvida a coisa mais sensata que eu li nos últimos tempos.  E como eu queria tê-lo escrito! Se inveja matasse a Maria Rita, estaria agora, além de desempregada, morta.
N.
Ps. Eu não escrevo sobre politica. Simplesmente porque eu escrevo basicamente um diário, e não tenho a menor vergonha disso. E segundo porque não tenho a menor intenção de causar polêmica ou influenciar ninguém, muito menos de entrar em discussões sem fim, com o fulano cuja opinião é baseada na Veja, ou em senso comum. Isso não quer dizer, que eu não leia sobre o assunto, que eu não tenha minhas opiniões, e que meu sangue não ferva com algumas das bogagens que circulam por ai.

Dois Pesos – Maria Rita Kehl
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apóia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela presidência da república. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da bolsa-família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés-de-chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela bolsa-família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido ,fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. 200 reais é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso Passava-se fome, na certa, como no assustador “Garapa”, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A bolsa família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da bolsa família, que apesar de modesta, reduziu de 12 para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem idéia do quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de 200 reais? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou este efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas em seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do país. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do país, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática , parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.