Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
(Frejat/Cazuza)
Eu tenho muita pena de quem não sabe ler. Não estou falando de quem é analfabeto, de quem não teve chance de ir à escola. Esse pelo menos tem consciência da própria ignorância, o que já é um sinal de vida inteligente. Estou falando mesmo é daquele que sabe que B + A é Ba, mas não consegue ir muito além disso. Aquele que estudou, às vezes até que foi (e foi aqui é o melhor termo) à faculdade.
Dou um exemplo melhor, para quem consegue acompanhar, claro. Recebi um email, anônimo (outra coisa que me dá pena) me esculachando por ser a favor do aborto e do homossexualismo. Agora, começando com o aborto, se você voltar lá no meu último post, vai ler que eu disse que sou a favor da legalização do mesmo. E só. Não tem nem subtexto para chegar a nenhuma outra conclusão além do que está literalmente escrito. A minha opinião sobre aborto nem está lá. Não por covardia, mas porque nem era relevante para o assunto sobre o qual eu escrevia.
Mas como eu não tenho medo das minhas opiniões, e nem "medo de que Deus me castigue", vai lá. Eu não sou a favor do aborto. Acho sinceramente que ninguém é. Eu acho sim, que toda mulher deve ter a opção de terminar uma gravidez indesejada, com a apoio médico e psicológico descente. Se eu faria um? Honestamente eu não sei. Definitivamente não hoje, com mais de 30 anos, casada e com condições psicológicas e financeiras de criar e educar uma criança (tendo ela sido planejada ou não), não com luxo, mas com dignidade e conforto. Fácil dizer que a minha resposta é não, eu nem consideraria essa hipótese. Tivesse eu 15 ou 10 anos a menos, e a situação fosse diferente, talvez eu não tivesse tão certa assim. Difícil (e as vezes até dolorido) é se colocar no lugar do outro. Pouca gente sabe fazer isso, principalmente entre os que se dizem "religiosos", por mais irônico e anti-cristão, que isso possa parecer.
Em segundo lugar, quem enxerga as coisas em cores que vão além do preto e do branco, sabe muito bem que a maioria das pessoas não deixa de tomar suas decisões, e de agir, contra o que se convém chamar de imoral ou ilegal. Portanto, legalizar o aborto, não significa automaticamente aumentar a taxa de abortos que são realizados por aí todos os dias. Quem tem dinheiro, paga por uma clinica ilegal. Quem não tem tenta os métodos mais esdrúxulos para conseguir o que deseja. Em ambos os casos a gente sabe como, na maioria das vezes, a coisa termina.
Lógico que num mundo ideal, ou num filme com a Meg Ryan, as pessoas teriam todas as condições de evitar uma gravidez indesejada, e tudo seria perfeito. Mas como não é, particularmente, eu acho que abortar ou não (nas primeiras semanas e por razões médicas, sociais ou econômicas plausíveis) é uma decisão ética e moral que deveria caber à mulher. Eu não julgo nem uma, nem a outra.
Quanto a segunda polêmica, bom, essa é tão ridícula que eu me sinto até meio sem vontade de rebater. Para começo de conversa, eu sou a favor do homossexualismo. Entendi. Então quer dizer que existe gente contra. Então, é tipo a minha opinião sobre o amarelo. Explico melhor. Eu acho amarelo uma cor horrível, acho que ninguém fica bem de amarelo, e ninguém deveria usar. Pronto falei. O "problema" é que o amarelo existe indiferentemente do meu gosto pessoal. Ele não vai deixar de existir porque eu não gosto (a não ser que um dia eu compre minha própria ilha, crie um país, e corte cabeças de quem ousar usar amarelo). Do contrário, vai sempre existir gente que goste de amarelo (e que me condene por gostar de roxo). E sabe o que mais? Se eu parar para pensar, não me faz mal nenhum, nem nenhuma diferença na minha vida, whatsoever, o fato das pessoas que gostam de amarelo existirem, ou até mesmo o fato delas (ousadas!) usarem amarelo na minha frente! Nem sequer dói.
Vou mais longe, e acho que se existe um Deus, mesmo que ele não goste de amarelo (eu prefiro acreditar que ele gosta de todas as cores), essas pessoas não vão ser castigadas.
Mas nada disso estava escrito no meu post. Eu só tinha dito que acho que sim, pessoas do mesmo sexo deveriam ter o mesmo direito que eu tive, de me casar legalmente. Não entendo porque não. E também não entendo o medo absurdo das pessoas que acham que caso isso aconteça, o mundo vai se acabar em fornicação.
Chega a ser engraçado. Eles acham que sexo gay deve ser tão bom, tão bom (nunca tentei, mas não estou dizendo que não seja) que ninguém mais vai querer fazer sexo hétero. Ou seja, se um homem puder legalmente casar com outro, não vai mais se casar com uma mulher, não vão ter filhos e it's the end of the world as we know it.
É até uma lógica meio flattering aos homossexuais, não é não?
Se você teve paciência de ler tudo isso e tem uma opinião diferente, ou melhor, um argumento que não seja "é pecado" (porque isso me lembra minha mãe me dizendo que eu não podia fazer alguma coisa "porque não"), e coragem de assinar seu nome embaixo, fique à vontade.
E caso você goste de amarelo, e tenha se sentido ofendido, eu peço desculpas pela metáfora.
Agora são quase 6 da manhã e se a insônia me permitir, eu volto para a cama.
N.