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segunda-feira, outubro 11, 2010

3.2

Fiz 32 anos na última sexta-feira. Depois que você passa dos 30, fazer 32 é um pedaço de bolo. E foi muito melhor do que quando fiz 31 e estava me sentindo meio sozinha por aqui. 

Esse ano foi especial porque eu sabia que não ia passar pela DPA (depressão pós-aniversário). Com um bebê a caminho fica fácil esperar que pelo que vem pela frente, ao invés de esperar só pelo Natal (porque é isso que eu costumava fazer, do dia 9 de Outubro ao 24 de Dezembro).

Estar grávida também significou que eu pude comer tudo o que eu queria sem me sentir (muito) culpada. Passei o dia a base do bolo prestígio que eu mesma fiz (e levei pro trabalho), e à noite comemos pizza. I. me deu o par de tênis placebo que eu queria (reza a lenda, e eu escolhi acreditar, que o tênis exercita os músculos do bumbum e das pernas enquanto você caminha), o Claddagh ring que eu também tinha pedido (escrevi esse post aqui sobre a lenda do anel), e me levou pra Belfast para passar a noite num quarto de hotel legal e com dinheiro para fazer compras por lá. 




 
Foi o fim-de-semana perfeito, comprei roupas para o bebê (pela primeira vez), passeamos, saímos para jantar, aproveitei a banheira do quarto de hotel e a cama gigante e dormi como há tempos não dormia, descansamos. Voltei para Dublin me sentindo mais nova, ao invés de mais velha. 



Pra todo mundo que me deixou recadinhos online espalhados por aí eu retribuo com muitos, muitos beijos. 

N.

sábado, outubro 09, 2010

Preto, branco e amarelo

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
(Frejat/Cazuza)

Eu tenho muita pena de quem não sabe ler. Não estou falando de quem é analfabeto, de quem não teve chance de ir à escola. Esse pelo menos tem consciência da própria ignorância, o que já é um sinal de vida inteligente. Estou falando mesmo é daquele que sabe que B + A é Ba, mas não consegue ir muito além disso. Aquele que estudou, às vezes até que foi (e foi aqui é o melhor termo) à faculdade. 

Dou um exemplo melhor, para quem consegue acompanhar, claro. Recebi um email, anônimo (outra coisa que me dá pena) me esculachando por ser a favor do aborto e do homossexualismo. Agora, começando com o aborto, se você voltar lá no meu último post, vai ler que eu disse que sou a favor da legalização do mesmo. E só. Não tem nem subtexto para chegar a nenhuma outra conclusão além do que está literalmente escrito. A minha opinião sobre aborto nem está lá. Não por covardia, mas porque nem era relevante para o assunto sobre o qual eu escrevia. 

Mas como eu não tenho medo das minhas opiniões, e nem "medo de que Deus me castigue", vai lá. Eu não sou a favor do aborto. Acho sinceramente que ninguém é. Eu acho sim, que toda mulher deve ter a opção de terminar uma gravidez indesejada, com a apoio médico e psicológico descente. Se eu faria um? Honestamente eu não sei. Definitivamente não hoje, com mais de 30 anos, casada e com condições psicológicas e financeiras de criar e educar uma criança (tendo ela sido planejada ou não), não com luxo, mas com dignidade e conforto. Fácil dizer que a minha resposta é não, eu nem consideraria essa hipótese. Tivesse eu 15 ou 10 anos a menos, e a situação fosse diferente, talvez eu não tivesse tão certa assim. Difícil (e as vezes até dolorido) é se colocar no lugar do outro. Pouca gente sabe fazer isso, principalmente entre os que se dizem "religiosos", por mais irônico e anti-cristão, que isso possa parecer. 

Em segundo lugar, quem enxerga as coisas em cores que vão além do preto e do branco, sabe muito bem que a  maioria das pessoas não deixa de tomar suas decisões, e de agir, contra o que se convém chamar de imoral ou ilegal. Portanto, legalizar o aborto, não significa automaticamente aumentar a taxa de abortos que são realizados por aí todos os dias. Quem tem dinheiro, paga por uma clinica ilegal. Quem não tem tenta os métodos mais esdrúxulos para conseguir o que deseja. Em ambos os casos a gente sabe como, na maioria das vezes, a coisa termina. 

Lógico que num mundo ideal, ou num filme com a Meg Ryan, as pessoas teriam todas as condições de evitar uma gravidez indesejada, e tudo seria perfeito. Mas como não é, particularmente, eu acho que abortar ou não (nas primeiras semanas e por razões médicas, sociais ou econômicas plausíveis) é uma decisão ética e moral que deveria caber à mulher. Eu não julgo nem uma, nem a outra.

Quanto a segunda polêmica, bom, essa é tão ridícula que eu me sinto até meio sem vontade de rebater. Para começo de conversa, eu sou a favor do homossexualismo. Entendi. Então quer dizer que existe gente contra. Então, é tipo a minha opinião sobre o amarelo. Explico melhor. Eu acho amarelo uma cor horrível, acho que ninguém fica bem de amarelo, e ninguém deveria usar. Pronto falei. O "problema" é que o amarelo existe indiferentemente do meu gosto pessoal. Ele não vai deixar de existir porque eu não gosto (a não ser que um dia eu compre minha própria ilha, crie um país, e corte cabeças de quem ousar usar amarelo). Do contrário, vai sempre existir gente que goste de amarelo (e que me condene por gostar de roxo). E sabe o que mais? Se eu parar para pensar, não me faz mal nenhum, nem nenhuma diferença na minha vida, whatsoever, o fato das pessoas que gostam de amarelo existirem, ou até mesmo o fato delas (ousadas!) usarem amarelo na minha frente! Nem sequer dói. 

Vou mais longe, e acho que se existe um Deus, mesmo que ele não goste de amarelo (eu prefiro acreditar que ele gosta de todas as cores), essas pessoas não vão ser castigadas. 

Mas nada disso estava escrito no meu post. Eu só tinha dito que acho que sim, pessoas do mesmo sexo deveriam ter o mesmo direito que eu tive, de me casar legalmente. Não entendo porque não. E também não entendo o medo absurdo das pessoas que acham que caso isso aconteça, o mundo vai se acabar em fornicação.

Chega  a ser engraçado. Eles acham que sexo gay deve ser tão bom, tão bom (nunca tentei, mas não estou dizendo que não seja) que ninguém mais vai querer fazer sexo hétero. Ou seja, se um homem puder legalmente casar com outro, não vai mais se casar com uma mulher, não vão ter filhos e it's the end of the world as we know it.

É até uma lógica meio flattering aos homossexuais, não é não?

Se você teve paciência de ler tudo isso e tem uma opinião diferente, ou melhor, um argumento que não seja "é pecado" (porque isso me lembra minha mãe me dizendo que eu não podia fazer alguma coisa "porque não"), e coragem de assinar seu nome embaixo, fique à vontade.

E caso você goste de amarelo, e tenha se sentido ofendido, eu peço desculpas pela metáfora.

Agora são quase 6 da manhã e se a insônia me permitir, eu volto para a cama. 

N.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Não abra, é spam.


Quando a pessoa coloca uma mensagem pessoal no Facebook, no Orkut, no Twitter (ou sei lá mais onde), seja lá o que for, você é obrigado a aturar, afinal de contas todos esses sites de relacionamento são para isso mesmo, para espiar a vida do outro (não é que George Orwell tinha razão?). Se você não gosta, conta com a simples opção de deletar a pessoa da sua lista de amizades, ou excluir sua conta e cuidar da própria vida. Portanto acho o ó quando fulano reclama das mensagens que lê por aí.
Agora o que me irrita mesmo, a nível estratosférico são mensagens enviadas diretamente às minhas contas de e-mail ou páginas pessoais. Não me leve tão a mal, às vezes recebo coisas bonitinhas ou engraçadas (ou pelo menos de bom gosto) que alguém recebeu numa corrente qualquer e achou que tinha a ver comigo (e às vezes mais um grupinho de pessoas). Tudo bem até aí. O que eu não gosto mesmo são aquelas vindas do fulano (que às vezes eu não vejo há tanto tempo, que já nem me lembro mais da onde conhecia) que simplesmente seleciona todos os contatos e manda ver. Parece até que esse tipo de pessoa só conhece uma única função do e-mail: forward.
Mais do que campanhas “solidárias”, fotos mega fofas de bebês, cachorros (ou cachorros com bebês), avisos de perigo eminente (roubo de senhas, alimentos cancerígenos), o que me irrita ainda mais são aqueles pedidos de voto. Seja ele no seu blog, no seu filho, no síndico do seu prédio ou no presidente da República.
Essa semana duas vertentes do tipo inundaram minha caixa postal. A primeira tentando mudar minha opção de voto para  presidente. Eu? Hello? Primeiro, eu não sou católica, nem protestante, nem religiosa (perigo até ser atéia, ou no minimo agnóstica). Segundo, eu sou mais é a favor da legalizacão do aborto e da união civil de pessoas do mesmo sexo mesmo. Terceiro, eu sei muito bem que, além de uma idiotice, é uma grande mentira. E terceiro, eu não baseio meu voto na opinião dos outros.
A segunda foi o “por favor vote na minha filha para a eleição do Miss Maria do Bairro 2010”*. Não um ou dois emails, mas vários, todos os dias, por dias e dias seguidos. Como se não fosse o bastante para encher meu saco (que não é grande), aí vem o pedido para que eu mande por e-mail meu nome completo e CPF assim a pessoa pode votar por mim e “evitar” me aborrecer. Faça-me o favor, né? Quer parar de me aborrecer, e só parar com os e-mails.
Aliás, se católicos/protestantes e afins seguissem o mesmo raciocínio, estariam pedindo pelo meu título de eleitor para  “evitar” me aborrecer, votariam por mim e me livrariam assim de todo o mal amém.
Sim, estou ficando mais velha e mais resmungona. Parabéns para mim.
N.
* o nome da campanha foi trocado para evitar constrangimentos.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Dois Pesos


O texto abaixo, de 2 de Outubro, é de autoria da psicanalista Maria Rita Kehl, colunista do jornal O Estado de São Paulo, que pode ter sido demitida (ou no mínimo censurada) pela publicação do mesmo.
Se eu fosse assinante do Estadão (não vejo porque seria, em primeiro lugar), cancelaria minha assinatura. Como não sou, publico o texto aqui, porque além de achar absurda a decisão do jornal, o texto é sem dúvida a coisa mais sensata que eu li nos últimos tempos.  E como eu queria tê-lo escrito! Se inveja matasse a Maria Rita, estaria agora, além de desempregada, morta.
N.
Ps. Eu não escrevo sobre politica. Simplesmente porque eu escrevo basicamente um diário, e não tenho a menor vergonha disso. E segundo porque não tenho a menor intenção de causar polêmica ou influenciar ninguém, muito menos de entrar em discussões sem fim, com o fulano cuja opinião é baseada na Veja, ou em senso comum. Isso não quer dizer, que eu não leia sobre o assunto, que eu não tenha minhas opiniões, e que meu sangue não ferva com algumas das bogagens que circulam por ai.

Dois Pesos – Maria Rita Kehl
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apóia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela presidência da república. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da bolsa-família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés-de-chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela bolsa-família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido ,fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. 200 reais é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso Passava-se fome, na certa, como no assustador “Garapa”, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A bolsa família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da bolsa família, que apesar de modesta, reduziu de 12 para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem idéia do quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de 200 reais? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou este efeito de “acumulação primitiva de democracia”.
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas em seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do país. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do país, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática , parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
             

sexta-feira, outubro 01, 2010

Too posh to push


Uma das únicas certezas que eu tinha na vida, no que se refere a filhos, era a de se um dia eu os tivesse , optaria por uma cesárea. Sempre soube disso, muito antes ainda de querer tê-los. Mas como eu já disse, diversas outras vezes, eu vivo para pagar minha língua. Muito menos por convicção do que por opção, vale mencionar.
Com todo o respeito às mulheres que optam por um parto normal,  eu acho uma bobagem só essa estória de que o parto normal aproxima mais a mãe do bebê, que é menos traumático para a criança, blá, blá,blá. Acredito sim, que traga vantagens, como a recuperação mais rápida e menores riscos de complicação. Mas eu queria mesmo era mais drogas e menos dor. Muito mais drogas do que dor. Aliás, se eu pudesse estar desacordada durante todo o procedimento, melhor. Dor de parto não me pertence. Me parece meio século passado essa coisa de morrer de dor para parir.  E don’t even get me started com a idéia de ter o parto em casa (coisa de hippie que vai chamar o filho de Apple, River, etc. e tal). Definitely not me.
Mas voltando ao assunto,  ao contrário do Brasil, onde a porcentagem de cesáreas pode chegar a 80% do total de partos (a taxa mais alta do mundo), aqui na Irlanda, que segue as recomendações da OMS (organização mundial de saúde) que sugere que essa taxa fique abaixo dos 15%, cesárea só no caso de algum problema com a mãe ou a criança. (fique a vontade para bater na madeira se for supersticioso).
Caso eu tivesse um plano privado de saúde, poderia contrariar a maioria, mas na rede pública, não existe mesmo outra opção.
O que eu preciso desde agora é me acostumar com a idéia e tentar pensar no lado bom, mais uma vez: menores riscos de complicação para mim e para o bebê, sem cicatrizes, recuperação mais rápida e sem dor (o que vai me permitir me locomover mais rápido e “aproveitar” o bebê) e possibilidade de amamentar logo após o parto. Ah, e sem contar que hoje em dia existe anestesia para isso também, para não dizer que os tempos não mudaram.
Quanto ao lado ruim, esse eu vou ignorar completamente. E agradeço desde já a sua compreensão ao não me lembrar que ele existe.
N.
Ps. Deus poderia ser russo e feito a gente feito matryoshka.